Nosso relativismo moral vem
de longe. É obra cumulativa de séculos. A acachapante
aprovação nacional de Lula da Silva, sem contar com sua
eleição e reeleição, demonstra que já chegamos aos píncaros
das conseqüências históricas com requintes de caos. E diante
do que se passa na atualidade, lembremos de Gregório de Matos
e Guerra (1636-1696) advogado e poeta, alcunhado Boca do
Inferno ou Boca de Brasa. Em Epílogos, ele retrata a
paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época
colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a
paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:
"Que falta neste pais?
Verdade.
Que mais por sua desonra?
Honra.
Falta mais que se lhe
ponha? Vergonha".
"O demo a viver se exponha, Por mais que a fama o
exalte,
Num país onde falta Verdade, honra, vergonha".
Nunca nos faltou tanto
verdade, honra, vergonha. Convivemos alegremente com "mensaleiros",
sanguessugas, transportadores de dólares em cuecas e até os
reelegemos. Somos antiamericanistas doentes, mas volta e meia
vamos aos Estados Unidos para fazer turismo, comprar, estudar,
trabalhar, cuidar da saúde, além dos milhões de brasileiros
que partem em busca da América, América e lá permanecem
clandestinos, mas ganhando o que jamais ganhariam aqui.
Odiamos os judeus porque preferimos o Hamas dos Palestinos.
Como bons latino-americanos somos de esquerda e por isso
idolatramos Fidel Castro, não importando ser ele um ditador
implacável que nunca respeitou os direitos humanos. Se Lula da
Silva, o grande pai de seu povo, põe o Brasil de joelhos
diante de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando
Lugo, Cristina Kirchner, nos inclinamos também perante as
lideranças populistas que infestam a América Latina sempre
imersa em sua mentalidade do atraso, em suas mazelas, em seus
fracassos. A corrupção faz parte de nossa história e aprovamos
governos corruptos ao dizer que se estivéssemos lá faríamos as
mesmas coisas. Afinal, somos espertos, malandros e nossa
satisfação em passar os outros para trás não tem limites.
Indiferentes ou ignorando o que ocorre no Congresso Nacional
ou no âmbito da Justiça seguimos cantando o samba de Zeca
Pagodinho que nosso presidente da República tanto aprecia:
"Deixa a vida me levar". Futebol, carnaval e Big Brother são
nosso alimento espiritual. Acreditamos que o MST é um
movimento social pacífico que não esbulha proprietários rurais
destruindo maquinário, roubando gado, pilhando, queimando
sedes de fazendas. Do mesmo modo admiramos as sanguinárias
Farcs, idealizadas como heróicas e defensoras do povo
colombiano.
No momento dois fatos
empolgam os noticiários. O primeiro diz respeito ao caso do
terrorista Cesare Battisti, que a Itália quer de volta, mas
que já foi perdoado por nosso ministro da Justiça com o acordo
de Lula da Silva. Não devolveremos Battisti de jeito nenhum, o
criminoso é nosso. Também estamos de braços abertos para
receber os terroristas de Guantánamo. Aplausos para a Justiça
brasileira, pois aqui o crime compensa. Do jeito que a coisa
vai, pode ser que Lula da Silva crie o Ministério do
Terrorismo e convide Osama Bin Laden para ministro. Seria mais
uma vez delirantemente aplaudido pelo povo e seu prestígio
subiria como atestado em pesquisa.
O segundo fato é relativo
ao Fórum Social Mundial, que ocorre em Belém do Pará. O
governo investiu milhões na festividade, inclusive, em
camisinhas. Tudo pago com o dinheiro do contribuinte, ou seja,
estamos financiando a esbórnia que atrai pessoas de todo o
Brasil e do exterior. Presentes ao festival estarão Lula da
Silva, ministros, assessores, figuras como João Pedro Stédile,
além dos caudilhos Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa.
Fernando Lugo, que fazem Lula sonhar com outro mandato
possível. Lula não irá ao Fórum Econômico Mundial em Davos. Ficará
em Belém dançando o Carimbó.
Aliás, não faltarão ao
carnavalesco evento, além das camisinhas, muita cachaça e
folia. Naturalmente, os participantes se posicionarão contra o
capitalismo que os sustenta, contra a liberdade que permite a
festividade, contra a riqueza que almejam para si. Dizem que
no globalizado Fórum será dada oportunidade aos participantes,
se os eflúvios etílicos permitirem, de perceberem que os
problemas que assolam o mundo derivam da competição pelo poder
e do acúmulo de bens materiais. Ou seja, tudo que eles mesmos
fazem ou almejam. Em suas utopias delirantes as esquerdas
clamarão pela volta do socialismo, nem que seja o do século
XXI. E enquanto a crise avança sobre o planeta, em Belém do
Pará se dançará o Carimbó, pois o tal outro mundo possível
nunca foi definido nesses fóruns onde acontece de tudo, menos
idéias.
Sem dúvida, esse "Fórum
Socialista" faz recordar as proféticas palavras de Ortega y
Gasset em A Rebelião das Massas: "A vida toda se
contrairá. A atual abundância de possibilidades se converterá
em efetiva míngua, escassez, em impotência angustiante, em
verdadeira decadência. Porque a rebelião das massas é a mesma
coisa que Rathenau chamava de 'a invasão vertical dos
bárbaros".